É fascinante como a linguagem, ao mesmo tempo em que é o veículo para dizer o que se quer dizer, é também o reflexo de quem está dizendo e da maneira como ele se relaciona com seus interlocutores. A reflexão sobre a linguagem mostra que nem sempre os discursos são tão bem intencionados quanto gostariam de parecer.
Na capa de uma revista semanal, conhecida por sua adesão ao sensacionalismo e à cobertura parcial e partidária da política nacional, lê-se: "o mundo encantado deles"
O pronome "deles", contração de "de" + "eles", demonstra algo curioso a respeito da estrutura social brasileira.
Se perguntar ao editor quem são "eles", possivelmente dirá que é o governo da situação. É isso o que ele quis dizer quando disse "deles".
Agora, se perguntar ao editor a quem se opõe o "eles", caso responda, dirá possivelmente a "nós".
Ora, quando se diz "eles", está-se criando uma oposição entre dois grupos: são eles do lado de lá e "nós" do lado de cá.
Sendo assim, a revista, com o implícito de sua capa, mostra-se do modo mais autoritário possível diante da sociedade brasileira, partindo do pressuposto de que ela tem alguma representatividade social. Ela se considera no direito de falar em nome de "nós".
A revista não veicula, em sua farsa editorial, a "nossa" voz, o "nosso" compromisso, etc. etc.
Em meio à heterogeneidade que é a sociedade brasileira, a revista se pretende como um porta-voz auto-instituído de todo o interesse que é diferente do interesse do "eles".
A capa da revista, na baixeza de sua linguagem autoritária, cria um efeito de unidade em que o seu assinante identifica-se imediatamente com o "nós" instituído por sua linha editorial.
O leitor então, em meio a tanta diversidade cultural, regional e social que há no Brasil, passa a validar que a revista tem o poder de se instituir como a voz única do "nós, os brasileiros governados por eles".
Trata-se de uma sutileza de linguagem que demonstra, como sempre, o caráter autoritário e farsante de uma revista que representa uma parcela da classe média brasileira que se entende como a única capaz de pensar e decidir sobre o rumo nacional (lembre-se que são essas pessoas que não admitiem um presidente que foi escolha da maioria). Tal grupo, reflexo e espelho dessa revista, tem a pretensão de ser mais brasileiro do que todos os outros brasileiros e, por isso, acredita que pode utilizar o pronome "nós" em nome de todos.
E, com essa mesma ignorância e presunção, continuam assinando esses semanários que mascaram seus interesses particulares e partidários como se fossem interesses daqueles que chamam de NÓS, os brasileiros.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
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